segunda-feira, 12 de julho de 2010

"A Ignorância é uma dádiva!"

     Em 1998, aos 15 anos, eu trabalhava como estagiário em uma loja de pneus. Lembro com uma riqueza de detalhes surpreendente que, com meu primeiro salário (R$120,00 na época), guardei R$30,00, gastei mais uns R$40,00 em festas e com o restante comprei um radinho. Bem bacaninha ele; da Pionner até. Mas o gasto tinha uma razão.

    Nas cidades do interior, os estabelecimentos comerciais fecham ao meio dia para que os funcionários possam ir almoçar em casa e, não diferente aos demais, o local em que eu trabalhava fazia o mesmo e todos os dias eu pegava minha bicicleta e fazia o trajeto trabalho -> casa, casa -> trabalho. Neste itinerário de alguns minutos (permitam-me a fuga gramatical), restava-me ouvir uma música para escapar da monotonia de ver sempre as mesmas paisagens. Também lembro-me bem que Skank, Biquini Cavadão e Cowboys Espirituais eram as bandas mais tocadas.

     Tinha meus 15 anos e me preocupava apenas com as novidades de trabalhar e estudar à noite. Era tudo novidade. Achava incrível sair tarde do “colégio”, ter um trabalho e ganhar um salário. Os R$30,00 que guardava tinha o objetivo de comprar alguma coisa um pouco mais cara (depois de alguma economia, acabei comprando uma réplica da Ferrari F-50 e da Lamborghini Diablo, as quais guardo até hoje). Essa era a minha vida. Simples assim!

     Hoje, conversava com uma amiga e lembrei-me daquela época. Comentava o quanto eu estava diferente, minha vida havia mudado e como tinha alcançado diversos objetivos (não quero dizer que tenho muito, porém quando não se tem nada, qualquer centavo é uma fortuna). Tomado pela nostalgia não tive outra idéia se não a de fazer uma playlist com as músicas daquela época e ouvi-las enquanto terminava o cronograma de um projeto. Então, fui tomado por uma tristeza grandiosa. Não sei bem se era trsiteza, mas era algo parecido. Talvez uma soma de “missão cumprida”, com “tenho ainda muito pela frente”, mas tudo isso dominado pelo sempre amargo sentimento de “eu era feliz e não sabia”.

     Como explicar o paradoxo de ter tudo que sonhou e conseguir sentir saudades de um passado tão simples? Foi então que percebi estar sentindo falta de ser ignorante.

     Exato, ignorante. Ignorância no sentido de falta de ciência e de saber. Por desconhecer tudo, não me preocupava com nada. Não sabia quanto era um bom salário, logo acreditava que ganhava bem. Também não sabia que existiam outros empregos, logo o meu era ótimo. Tão pouco sabia das condições financeiras da minha fonte empregadora, gerando-me idéia de estabilidade. O que dirá então do entendimento político sobre o meu país, o que me fazia pensar estar morando em um lugar perfeito. Era excluído das discussões familiares, logo, minha família era perfeita. Preço de um apartamento, de um carro ou dificuldades em tê-los também não faziam parte da minha consciência. Enfim, um alienado, porém feliz adolescente.

     Às vezes descubro coisas que não queria saber; que preferiria fazer de conta que não sei, mas geralmente é tarde demais. É simplesmente por isso que detesto fofoca, noticiário midiático, publicidade barata e futilidade cultural, porque geralmente vem associada de uma monte de informação que não irá mudar minha vida em nada e apenas me darão mais informação para diluir e, talvez, pensar a respeito. Não permita que qualquer informação roube algo tão precioso de você como sua ignorância. Abra mão dela apenas para o que realmente valer a pena, pois em breve pode concluir que a perdeu por completo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Brasil é um país de acomodados? II

     Para dar ênfase no que eu havia escrito no ultimo post, recentemente foi definida uma nova forma de divisão dos Royalties de petróleo no Brasil. Pergunto: como o deputado Ibsen Pinheiro, autor da primeira proposta que visava apenas o pré-sal, conseguiu aprovar um texto no senado para re-distribuir todos os Royalties (e não apenas os do pré-sal)? Para facilitar, farei uma questão alternativa:

a) Motim em frente à Petrobrás
b) Criticou publicamente seus colegas
c) Passeata para buscar apoio da população
d) As três alternativas anteriores
e) Atuou na Superestrutura
Gabarito: alternativa E.

     Ibsen sabia que precisava atuar na Superestrutura para que a mudança fosse alcançada. Como ele conhece bem esta camada social (porque está lá ha muito tempo), também sabia que o momento certo era em um ano eleitoral e, por ultimo, que precisaria de um apoio no Senado. Portanto buscou apoio em seu correligionário, o Senador Pedro Simon, e conseguiu uma aprovação histórica (do ponto de vista da mudança provocada e dos interesses que estavam em jogo). Estas votações polêmicas são raras, pois, ao dividir a opinião pública, elas expõem os políticos e por este motivo eles as temem (vide exemplos da reforma tributária, eleitoral e tantas outras que não saem do papel). Em um exercício de suposição, acredito que ao trazer um assunto deste para votação, os colegas de Ibsen devem ter dito “está maluco! Atacando a Superestrutura! Quer dinheiro, crie um imposto novo!”.


***

     Nossa política lembra muito aquelas empresas em que as mesmas pessoas trabalham lá há muitos anos. Todos se conhecem e não fazem nada que possam lhes expor. Preferem ficar inertes em sua zona de conforto, até por que não são cobrados de quem lhes consegue o emprego. Quando recebem um novo colega, se o perceberem cheio de motivação e de idéia, logo iniciam o discurso de “aqui não trabalhamos deste jeito...” ou "aqui as coisas são diferentes...", com o intuito de cessar todo seu ânimo, que pode expor o quanto não fazem nada (ou pior, pode obrigá-los a começar a trabalhar). Se você fosse dono desta empresa, e percebesse isso, o que faria? Demitiria os funcionários antigos a fim de criar uma nova postura? Sim? Pois é, pense nisso quando for votar em Outubro!

terça-feira, 29 de junho de 2010

O Brasil é um país de acomodados?

     Sabem, já ouvi diversas vezes que o Brasil é um país de pessoas acomodadas, que deixamos os governantes fazerem o que querem e nem ao menos no manifestamos. Isto até é verdade, mas em partes.

     Acontece que o brasileiro sabe como se organizar para protestar. Basta lembrarmos dos sindicatos, do MST, das ONGs e das diversas outras formações coletivas. Podemos concordar ou discordar de suas ideologias e de seus interesses, mas não podemos negar que estes grupos têm potencial de mobilização. Mas o que está errado então? Se de fato conseguimos nos mobilizar a este ponto, por qual motivo os políticos fazem o que querem? Em minha opinião, falta um pouco de filosofia em nossos movimentos de esquerda. E filosofia Marxista!

     Por mais estranho que isso possa parecer, falta mesmo um pouco de Marxismo. Acredito que eles até lêem Marx, porém da forma errada. Como o intelectual alemão escreveu sobre a necessidade de revolução nas lutas de classes, eles ignoram o resto (ou agem muitas vezes com se ignorassem) e aplicam esta parte, porém todo bom leitor de filosofia sabe que precisamos analisar o contexto histórico do autor e da sua obra.

     Quando Marx escreve isso, a Europa está no auge da Segunda Revolução Industrial e os movimentos sociais emergem a partir da exploração dos trabalhadores (proletários). Estes estão submetidos a condições como uma jornada de 80 hora semanais, por exemplo. É uma realidade extrema. É neste contexto que Marx fala em revolução e a realidade mudou muito neste sentindo. Porém Marx escreveu algo que, se analisarmos com cuidado, veremos o quão atual ainda é: a divisão social.

     Para o filósofo, a sociedade é dividida em dois grupos: a Estrutura e a Superestrutura. De uma forma bem resumida, no primeiro grupo está o povão e no segundo os governantes. Abaixo, criei um desenho para ilustrar (clique na imagem para ampliá-la):

    
     Marx dizia que a tensão entre Estrutura e Superestrutura torna-se tão forte que a Superestrutura não consegue mais reprimi-la e é arrastada por ela. Sem esta tensão não há mudanças. Ele também dizia que o burguês (dono de empresa), ao dominar os meios de produção (máquinas, matéria prima, etc), teria condições, a partir do excedente de sua produção (a mais-valia ou o lucro mesmo), de influenciar na Superestrutura fazendo-a agir ao seu interesse. Em outras palavras, é o mesmo que dizer: “quem tem grana, consegue influenciar os políticos, as leis e tudo mais!”

     Tá, mas o que isso tem a ver com os esquerdistas brasileiros e com o fato de pareceremos acomodados? Tem tudo a ver! Digamos que eu queira trabalhar sete horas por dia. Vamos analisar as duas formas de fazer isso se tornar realidade:

Júnior: O Esquerdista Marxista!
     Bom, seguindo a teoria de Marx, já que eu estou na Estrutura, só conseguirei efetivar esta mudança se eu conseguir alterar a Superestrutura, no caso, as leis! Então, preciso convencer o plenário e o senado a aprovar uma nova lei. Depois, convenço o presidente de não vetá-la! Pronto! Assim sete horas diárias serão lei e eu vou trabalhar o quanto queria! Pronto (Marx não disse que era simples, mas disse como fazer)!

Júnior: O Esquerdista Brasileiro!
     Bom, seguindo a idéia do Marx, a burguesia é o problema!!! E mais: ela é a origem dos problemas! Então, se os meios de produção passarem para o controle do povo, seremos ouvidos! Teremos voz. Precisamos de uma revolução! Logo, o que temos a fazer é atacar os grandes! Vamos parar as industrias exigindo o regime de sete horas!!! Greve! Isso, uma greve. Vamos paralisar a produção e pressionar os grandes a nos darem o que é de direito.

     Perceberam a diferença? O esquerdista brasileiro ataca a própria Estrutura. Assim como o trabalhador defende o seu interesse, o empresário também defende. E quem arbitra (ou pelo menos deveria) sobre o conflito? A Superestrutura! Este é o problema dos esquerdistas brasileiros. Fazem o certo, porém no lugar errado. A quanto tempo se houve falar de Sem Terra? E continuaremos ouvindo, pois, ao invés de invadir o Plenário ou o Senado para forçar a aprovação/votação de leis rígidas quanto à reforma agrária, eles gastam energia atacando proprietários de terra. Enquanto isto, os governantes, lá no topo, olham para estas disputas de terra como espectadores. Outro exemplo é o resultado ridículo das lutas sindicais no Brasil. Férias, décimo terceiro, FGTS não foram conquistas sindicais, foram decretos presidenciais (Getúlio).

     Quem não se lembra (ou estudou) do movimento das “Diretas Já” ou dos “Caras Pintadas” reivindicando o Impeachment do ex-presidente Collor? Foram mobilizações que deram resultado! Justamente por terem atacado o alvo certo!
     Atacar a Estrutura é atacar o meio social em que estamos e por isso nossos movimentos de esquerda não possuem tantos adeptos. Com muita freqüência, são alvo de fortes críticas. Qualquer pessoa que ataque a Superestrutura será apoiada e transformará "acomodados" em caras pintadas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Não se atire no fosso das reflexões.

Peço desculpas aos que acompanham o blog, mas os encerramentos de semestre na UFRGS têm se demonstrado cada vez mais consumidores de tempo e, com isso, vão-se os momentos para leituras ou para rabiscar  idéias. Bom, chega de "blog-diário"...

Ultimamente, aprofundei minhas leituras em organizações e em sociologia. Tomei conhecimento sobre os temas em virtude da faculdade, mas é um mundo fascinante. Aproximei-me das obras de autores como Durkheim e Foucault. Também re-li figuras como Weber e Marx. Todos, sem exceção, são fascinantes. São pessoas e pessoas escrevendo sobre eles no mundo acadêmico. Um verdadeiro mundo tal como empreguei o termo. Porém, em todo lugar rico e belo há sempre uma periferia para nos causar desgosto.

Na periferia dos artigos acadêmicos estão as interpretações. Na verdade não. Qualquer pessoa é livre para interpretar um tema como entender. O problema está nas apropriações. Ahh, sim! Estas são revoltantes. Leio absurdos sobre comunismo descritos por esquerdistas que se quer leram algo sobre Marx. Da mesma forma que freqüentemente acesso leituras de economistas classificando e julgando o Marxismo. Também leio acadêmicos defendendo seus cursos como se houvesse uma guerra acadêmica que precisa ser vencida por quem têm o curso mais complexo, antigo e importante. Mas acredito que encontrei a justificativa.

O grande problema é o aprofundamento. Sim, algumas pessoas aprofundaram tanto seus conhecimentos em um tema, que perderam a habilidade de versar sobre os demais. Outros, já estão no sexto doutorado do mesmo curso e nem se lembram mais o que lhes motivou a iniciar os estudos. Desta forma, estas pessoas tornam-se incapazes de aceitar que seus estudos ou seus temas possam estar errados (em qualquer aspecto que for; do complexo ao banal) e travam batalhas com qualquer um que ousar contrária a sua.

De qualquer forma, enquanto me resta serenidade (espero nunca perdê-la), deixo três dicas fundamentais a respeito:
1 - Se é para disputar quem faz a faculdade mais complexo, antigo e importante do mundo, recomendo: inscreva-se em uma competição de arremesso de sementes de melancia por cusparadas. O mérito dos vencedores deve ser o mesmo;
2 - Dê sua opinião, sempre, mas esclareça que ela é sua. Não tente torná-las verdades absolutas, principalmente quando você for criticar algo. Neste caso, faça uma imersão antes;
3 - Por último, e não menos importante, antes de aprofundar suas reflexões sobre um tema, não se esqueça de amarrar uma corda na cintura.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Não se ofenda facilmente

Dias atrás, presenciei uma professora dando um “esporro” em um colega. Ao final da aula, ele veio até mim e disse: "Estou put.. com ela. Fui muito ofendido! Aquela vac... me desmoralizou na frente de todos". Na hora, apenas respondi "Esquece isso. Nem foi tanto assim.", mas, depois, pensando um pouco a respeito, questionei-me: "o que a professora tem a ver com isso?". Nada! Exatamente. Ela não teve nada a ver com o que ele sentia. Vamos lá; tentarei explicar.

Primeiramente, acredito que ninguém tem o poder de ofender ou de magoar outra pessoa e sim nós é que nos ofendemos e nos magoamos. Qualquer pessoa pode influenciar para que você se sinta magoado, mas a decisão é sua. É um processo endógeno e não exógeno! Vamos a um exemplo prático.

Digamos que você esteja caminhando com seus amigos e passe por um bêbado que lhe diz: "seu incompetente, seu burro, seu nada!". Seguramente todos seus amigos irão rir de você e, por sua vez, você pensará "é um maluco mesmo!" e, talvez, até ache graça. Analisando tecnicamente, uma pessoa proferiu palavras agressivas contra você. Ok, vamos a outro exemplo. Agora, digamos que você esteja em uma sala de aula e uma professora lhe fale as mesmas palavras em frente aos seus amigos. Sua reação será a mesma? Já se questionou o por quê?

Seguramente você reagirá semelhante ao meu colega. Isto porque a forma como VOCÊ enxerga um professor é diferente da maneira como vê um bêbado. Não estou sugerindo que devemos tratar ambos da mesma forma (jamais, até porque tenho vários amigos que bebem, hehehe). Brincadeiras a parte, obviamente um professor deve ser mais respeitado do que um bebasso qualquer. Trata-se de uma autoridade moral. Uma pessoa que se dedicou e se esforçou para estar onde está. Porém, quando ela lhe ofende, ela abre mão desta moral e decide agir tal como agiria um bêbado! Coloca-se em linha com ele e é isso que precisamos perceber. Naquele momento, devido ao seu gesto, não podemos continuar olhando para ele e enxergando um professor exemplar, mas sim um bebado maluco. Ele optou por isso e não você!

Muitas vezes isto ocorrerá. Pessoas que tratamos como autoridades (sejam nossos parentes, professores, lideres, amigos e todos os outros) tentarão nos ofender. Ou melhor, fazer com que nos sintamos ofendidos (intencionalmente ou não). Só conseguiremos evitar isso se, no momento da tentativa, pararmos de enxergar a autoridade e perceber que, diante de nós, está se apresentando uma pessoa que seus gestos lhe levaram a perder a moral que conquistou.